Capitã Marvel
Capitã Marvel: quando descobrimos que estávamos do lado errado
E se aquilo em que acreditamos for apenas uma versão da história que alguém nos contou?
Em Capitã Marvel (Captain Marvel), Carol Danvers vive convencida de que está a lutar por uma causa justa. Sem memória do seu passado, confia nos seus superiores e acredita que os inimigos que enfrenta representam uma ameaça à paz.
Mas, quando regressa à Terra e começa a recuperar as suas recordações, tudo muda. Descobre que pessoas em quem confiava lhe esconderam a verdade e que aqueles que considerava inimigos não são necessariamente aquilo que lhe fizeram acreditar.
É uma história sobre poderes extraordinários, mas também sobre amizade, memória, manipulação e a coragem de reconhecer que podemos estar enganados.
1. Quando acontece?
A história principal decorre em 1995, mas inclui acontecimentos anteriores e uma ligação ao futuro do MCU.
1989 — A origem dos poderes: Carol Danvers, piloto da Força Aérea dos Estados Unidos, está envolvida num projeto experimental de um motor capaz de atingir velocidades extraordinárias. A cientista que lidera o projeto, conhecida como Dra. Wendy Lawson, é na realidade Mar-Vell, uma cientista Kree que procura utilizar a tecnologia para ajudar refugiados Skrull. Quando o projeto é atacado, Carol é exposta à energia do Tesseract, perde a memória e acaba nas mãos dos Kree.
1995 — A história principal: agora conhecida como Vers, Carol integra a Starforce, uma unidade militar Kree. Durante uma missão contra os Skrulls, regressa à Terra, reencontra elementos do seu passado e descobre a verdadeira natureza do conflito em que está envolvida.
2018 — Ligação pós-créditos: uma cena a meio dos créditos decorre depois dos acontecimentos de Vingadores: Guerra do Infinito. A S.H.I.E.L.D. já não está presente, mas o pager de Nick Fury continua a emitir um sinal, até Carol aparecer perante os Vingadores.
2. Quando foi lançado?
Capitã Marvel (Captain Marvel) estreou nos cinemas portugueses a 7 de março de 2019.
Foi o primeiro filme do Universo Cinematográfico Marvel protagonizado por uma super-heroína, acompanhando a origem de Carol Danvers e o seu percurso até se tornar numa das figuras mais poderosas do universo Marvel.
3. Onde acontece?
A história começa no espaço e transporta-nos depois para diferentes locais da Terra, num período em que a tecnologia dos anos 90 contrasta com o avançado equipamento extraterrestre.
Hala: planeta associado ao Império Kree, onde Carol vive e treina como membro da Starforce.
Espaço interestelar: cenário do conflito entre os Kree e os Skrulls, que se encontram envolvidos numa guerra de longa duração.
Terra, Estados Unidos, em 1995: Carol chega à Terra e cruza-se com Nick Fury, Phil Coulson e Maria Rambeau. A investigação passa por instalações militares, locais ligados ao projeto experimental e pela casa de Maria.
Laboratório secreto de Mar-Vell: instalação escondida em órbita da Terra, onde se encontram informações fundamentais sobre o motor experimental, o Tesseract e os planos da cientista.
Órbita terrestre, em 2018: local associado à cena a meio dos créditos que liga o filme aos acontecimentos de Vingadores: Guerra do Infinito.
Classificação IN2100: Universo 0 — universo principal do MCU. Os acontecimentos de 1989, 1995 e a ligação de 2018 pertencem à mesma continuidade, embora ocorram em momentos diferentes.
4. Quem são as personagens principais?
Carol Danvers / Vers / Capitã Marvel — Brie Larson: antiga piloto da Força Aérea, que perde a memória e passa a acreditar que é uma guerreira Kree. A descoberta do seu passado transforma a sua relação com o conflito.
Nick Fury — Samuel L. Jackson: agente da S.H.I.E.L.D. que conhece Carol na Terra e começa a investigar os acontecimentos que ameaçam o planeta.
Maria Rambeau — Lashana Lynch: piloto, antiga colega de Carol e sua grande amiga. A sua relação com Carol é fundamental para recuperar a memória e a identidade da protagonista.
Talos — Ben Mendelsohn: líder Skrull que inicialmente surge como inimigo, mas cuja história ajuda a revelar a verdadeira natureza do conflito.
Yon-Rogg — Jude Law: comandante da Starforce e mentor de Carol. Ensina-lhe a controlar as emoções, mas esconde-lhe informações sobre o seu passado.
Mar-Vell / Dra. Wendy Lawson — Annette Bening: cientista Kree dissidente que procura desenvolver uma tecnologia capaz de ajudar os Skrulls a encontrar um lugar seguro.
Minn-Erva — Gemma Chan: membro da Starforce e atiradora especializada.
Phil Coulson — Clark Gregg: jovem agente da S.H.I.E.L.D. que participa na investigação terrestre.
Ronan, o Acusador — Lee Pace: representante militar Kree associado à ofensiva contra os Skrulls.
Goose: o aparente gato que acompanha parte da história, mas que esconde uma natureza extraterrestre e um papel inesperadamente importante.
5. Qual é o resumo do filme?
Atenção: esta secção contém spoilers importantes, incluindo o desfecho e as cenas pós-créditos.
Uma guerreira sem passado
Em 1995, Carol vive em Hala, onde é conhecida como Vers e integra a Starforce. Acredita que os Kree estão a defender o seu povo contra os Skrulls, apresentados como invasores perigosos capazes de mudar de aparência e infiltrar-se nas sociedades que atacam.
Durante uma missão, Carol é capturada pelos Skrulls, que tentam aceder às suas memórias. A operação corre mal, mas permite-lhe escapar. A fuga leva-a até à Terra, onde cai numa loja da cadeia Blockbuster, num dos momentos mais característicos da representação dos anos 90.
A sua chegada chama a atenção de Nick Fury e Phil Coulson. Os dois agentes procuram compreender quem é aquela mulher e porque está a ser perseguida por uma força extraterrestre.
O reencontro com o passado
Enquanto procura respostas, Carol começa a ter recordações fragmentadas da vida que teve na Terra. As imagens revelam uma ligação à Força Aérea e a Maria Rambeau, uma amiga que a conhecia muito antes de ela se tornar Vers.Quando encontra Maria, percebe que ambas partilharam uma parte importante das suas vidas e que a sua amizade foi interrompida pela aparente morte de Carol num acidente aéreo.
Maria ajuda-a a compreender que a mulher que procura nas suas memórias não é uma desconhecida: é a própria Carol Danvers.
Ao mesmo tempo, Talos revela informações que contradizem tudo aquilo que Carol aprendeu com os Kree. Os Skrulls não são simplesmente uma força invasora. Muitos são refugiados que fogem da perseguição Kree e procuram um lugar onde possam viver em segurança.
A verdade sobre Mar-Vell e o Tesseract
As recordações de Carol conduzem-na até ao projeto secreto de Mar-Vell, que trabalhava num motor experimental alimentado pela energia do Tesseract.
Em 1989, Yon-Rogg matou Mar-Vell para impedir que o projeto fosse concluído nos termos que ela pretendia. Carol tentou destruir o motor para evitar que caísse nas mãos erradas, mas a explosão libertou uma enorme quantidade de energia. Foi essa exposição que lhe concedeu os seus poderes.
Depois do acidente, Yon-Rogg levou-a para Hala. A memória de Carol foi manipulada e as suas capacidades passaram a ser controladas através de um dispositivo implantado no seu corpo.
O que ela julgava ser um processo de treino e aperfeiçoamento era, na realidade, uma forma de controlo. Os seus superiores mantiveram-na afastada da verdade para a utilizar como arma na guerra.
A mudança de lado
Quando percebe finalmente o que aconteceu, Carol deixa de aceitar as ordens dos Kree como verdades absolutas. Decide ajudar Talos e os outros Skrulls a escapar, protegendo os refugiados que estavam escondidos no laboratório de Mar-Vell.
Durante o confronto final, os Kree tentam recuperar o controlo sobre Carol. No entanto, ela destrói o dispositivo que limitava os seus poderes e demonstra que não precisa de continuar subordinada a Yon-Rogg nem à Inteligência Suprema.
Ao recuperar o controlo sobre si própria, Carol consegue enfrentar a força militar que a perseguia e impede que os Kree capturem os refugiados.
A vitória não consiste apenas em derrotar um inimigo. Consiste em compreender a verdade e deixar de servir uma causa que afinal assentava na manipulação.
O nascimento da iniciativa dos Vingadores
No final, Carol parte para ajudar os Skrulls a encontrar um novo lar, mas deixa a Nick Fury um dispositivo que lhe permitirá contactá-la em caso de emergência.
Fury percebe que a Terra poderá enfrentar ameaças demasiado grandes para serem resolvidas por uma única organização. Ao procurar uma forma de reunir pessoas extraordinárias, inspira-se no antigo indicativo de Carol, «Avenger», para dar nome à iniciativa dos Vingadores.
A cena a meio dos créditos transporta-nos para 2018, depois dos acontecimentos de Vingadores: Guerra do Infinito. Os Vingadores encontram o sinal do pager de Fury e tentam perceber quem está do outro lado. Carol surge inesperadamente diante deles.
Na cena pós-créditos, Goose, que parecia ser apenas um gato, acaba por revelar novamente a sua natureza extraterrestre e a importância do Tesseract na história.
6. Quais são as ligações a outras obras Marvel?
Capitã Marvel ocupa um lugar particular na cronologia, porque a história principal decorre em 1995, muito antes de vários filmes que foram lançados antes dela. Ao mesmo tempo, a cena de 2018 liga-a diretamente à fase em que os Vingadores enfrentam Thanos.
O que convém ver antes?
Não é obrigatório conhecer os filmes anteriores para compreender a história de Carol. No entanto, para seguir a cronologia principal do IN2100, faz sentido ver antes:
Capitão América: O Primeiro Vingador: apresenta os acontecimentos da Segunda Guerra Mundial e a origem de alguns elementos históricos importantes do MCU.
Agente Carter: a curta-metragem e as duas temporadas acompanham Peggy Carter no pós-guerra, antes da história principal de Capitã Marvel.
Estas obras não são essenciais para compreender o conflito entre os Kree e os Skrulls, mas permitem seguir o desenvolvimento do MCU desde os primeiros anos da sua história.
O que ver a seguir?
Homem de Ferro (2008): é um dos próximos marcos importantes da cronologia principal do MCU, depois dos acontecimentos de 1995.
Vingadores (2012): aprofunda a iniciativa de Nick Fury e a reunião dos heróis.
Vingadores: Guerra do Infinito (2018): ajuda a compreender o contexto da cena a meio dos créditos de Capitã Marvel.
Vingadores: Endgame (2019): mostra a importância de Carol na luta contra Thanos.
The Marvels (2023): continua a história de Carol Danvers e liga a sua personagem a Monica Rambeau e Kamala Khan.
A recomendação para a linha temporal IN2100 é manter a história principal de Capitã Marvel em 1995 e colocar uma nota separada para a ligação pós-créditos de 2018. Assim, não misturamos a cronologia da narrativa principal com as cenas que estabelecem ligações a acontecimentos posteriores.
7. O que podemos aprender ou questionar?
A amizade pode sobreviver à distância e à perda
Uma das partes mais humanas do filme é a relação entre Carol Danvers e Maria Rambeau.
Antes do acidente, as duas partilhavam a paixão por voar, a experiência na Força Aérea e a confiança que se constrói entre pessoas que enfrentam desafios em conjunto. A perda de memória de Carol afasta-as e deixa Maria convencida de que a amiga nunca voltará.
Quando se reencontram, Maria não tenta obrigar Carol a aceitar uma versão dos acontecimentos apenas porque é a sua. Ajuda-a a recordar quem era, através de experiências partilhadas e daquilo que conhece da sua personalidade.
A relação demonstra que a identidade não depende apenas das memórias que conseguimos recuperar. Também é construída pelas pessoas que nos conhecem e que podem ajudar-nos a reencontrar partes de nós próprios.
Nem sempre estamos do lado que julgamos defender
Carol acredita que os Kree defendem a paz e que os Skrulls são os responsáveis pela guerra. Não tem razões para desconfiar da história que lhe contam, porque a sua memória foi manipulada e as informações a que tem acesso são controladas pelos seus superiores.Quando começa a ouvir outras perspetivas e a confrontar as versões dos acontecimentos com as provas, percebe que a realidade é muito diferente.
A descoberta obriga-a a rever as suas convicções e a reconhecer que estava a contribuir para uma situação injusta.
Isto acontece também na vida real, embora de formas diferentes. Podemos formar opiniões com base em informações incompletas, acreditar em pessoas que nos transmitem uma versão distorcida dos factos ou julgar os outros sem conhecer a sua história.
Por vezes, só quando ouvimos quem está do outro lado conseguimos perceber aquilo que nos faltava compreender.
Mudar de opinião pode ser um sinal de coragem
Admitir um erro nem sempre é fácil. Exige humildade para reconhecer que não temos todas as respostas e coragem para abandonar uma posição que talvez tenhamos defendido durante muito tempo.
Carol não muda de lado simplesmente porque alguém lhe pede. Muda porque começa a compreender os factos, percebe as consequências das suas ações e toma uma decisão diferente com base no que aprendeu.
A sua transformação mostra-nos que a lealdade não deve significar obediência cega. Podemos respeitar pessoas, instituições e ideias sem deixar de questionar aquilo que nos dizem.
O poder e a informação podem ser usados para controlar
Os Kree não controlam apenas as ações de Carol: controlam também a história que ela conhece sobre si própria e sobre os seus inimigos.
É essa combinação que a mantém do seu lado. Enquanto acredita que os seus superiores lhe dizem a verdade, Carol não tem razões para questionar a missão que lhe foi atribuída.
A série de acontecimentos levanta uma questão importante para o presente: quantas vezes formamos opiniões com base em informações selecionadas por quem tem interesse em orientar as nossas decisões?
Num mundo onde circulam notícias, propaganda, desinformação e conteúdos gerados por inteligência artificial, torna-se cada vez mais importante verificar fontes, comparar versões e distinguir factos de interpretações.
A perspetiva do IN2100
Para mim, esta é a grande lição de Capitã Marvel: não há nada de errado em mudar de posição quando descobrimos que estávamos enganados. Errado é recusar a verdade apenas porque já escolhemos um lado.
Carol começou por confiar numa versão dos acontecimentos que lhe foi apresentada como indiscutível. Quando descobriu que tinha sido manipulada, teve de decidir se continuava a obedecer ou se assumia a responsabilidade de agir de acordo com aquilo que agora sabia.
A vida coloca-nos muitas vezes perante situações semelhantes, embora sem guerras galácticas ou poderes extraordinários. Podemos apoiar uma ideia, defender uma pessoa ou tomar uma posição e, mais tarde, descobrir informações que mudam a forma como compreendemos o que aconteceu.
Nesses momentos, não devemos sentir vergonha por reconhecer que estávamos errados. Devemos ter a capacidade de admitir o erro, corrigir o rumo e agir de forma mais justa.
O importante não é estar sempre certo. É procurar compreender melhor a realidade e ter a coragem de mudar quando os factos demonstram que precisamos de o fazer.
E tu, quando descobres que uma ideia ou uma pessoa em que confiavas estava errada, tens facilidade em mudar de posição ou custa-te admitir que estavas enganado?
Esta é uma das razões pelas quais Capitã Marvel merece ser vista para além da ação: lembra-nos de que a verdadeira força também está na capacidade de questionar aquilo em que acreditamos.
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